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SEPARAÇÃO DOS PAIS E OS EFEITOS PSICOLÓGICOS NA CRIANÇA

D+f_paisseparadosEsse texto é fruto de uma pesquisa de trabalho de conclusão do curso de psicologia que foi construída a partir de uma revisão sistemática de literatura, baseada em artigos científicos e livros sobre o tema. Como principais resultados alcançados por esta pesquisa, destacam-se: a família como detentora de uma função importante para o desenvolvimento psíquico da criança, pois favorece ao processo de identificação instituindo a parentalidade e favorecendo a criança à inserção no contexto social, cultural e na construção de laços afetivos. Segundo a psicanálise, o processo da separação implica na criança a perda do lugar de objeto de amor dos pais, ou seja, no lugar de desejo do Outro, podendo implicar em prejuízos simbólicos na construção libidinal dessas relações primárias e na capacidade de sublimar essa perda, pois são mecanismos do inconsciente importantes para o desenvolvimento da vida social do sujeito como um todo.

A criança ao vivenciar a separação dos pais pode ter reações defensivas que se manifestam através de sentimentos como: culpa pela separação, medo de ser abandonado por um dos pais ou pelos dois, insegurança e desconfiança ao construir novas relações sociais e afetivas. Para discussão e reflexão sobre a problemática que envolve a separação dos pais, utilizei a literatura psicanalítica para descrever os possíveis efeitos psicológicos advindos dessa situação conflituosa que pode interferir nesse processo de constituição psíquica da criança. Importante destacar que os aspectos da parentalidade e a função da família são fundamentais na construção da identidade da criança.

Nesse contexto, para os filhos torna-se mais difícil a elaboração sobre o que de fato está ocorrendo, pois há uma tendência a se culparem pela separação devido à imaturidade psíquica e a fantasia de que os pais voltarão a morarem juntos. Algumas crianças fazem promessas que irão obedecer aos pais, como por exemplo, realizar as atividades da escola sem que eles mandem e, muitas vezes, ocorre a frustração que nada podem fazer para mudarem essa realidade. A criança percebe que na verdade ela não pode tudo, caracterizando, assim, a queda da onipotência infantil.

Segundo a concepção psicanalítica, a separação dos pais provoca uma falta, uma instabilidade, da configuração fantasiosa que envolve a união do casal parental, caracterizando o segredo do gozo do casal. Quando o laço entre o pai e a mãe é desfeito, a criança se depara com os impasses para a simbolização da não relação sexual com um dos pais e o processo de castração que caracterizam o complexo de Édipo. É justamente nessa questão da impossibilidade da não relação sexual com o genitor do sexo oposto que as possíveis consequências no desenvolvimento psíquico ocorrem. Porém, a vivência edípica pode também acontecer com o irmão ou a irmã, assim como, com as novas pessoas que irão compor o contexto familiar a partir da nova configuração que se firmar com a separação conjugal.

Nesse contexto, a família desempenha uma função relevante para a constituição subjetiva do indivíduo, principalmente, porque a criança constrói uma identificação com os pares daquela formação conjugal como causa do desejo dos pais correspondente ao imaginário infantil, geralmente, dos três aos cinco anos de idade. Nesse sentido, o investimento libidinal, do ponto de vista dos processos mentais inconscientes, é direcionado para a identificação com o outro do mesmo sexo e na relação objetal com o sexo oposto. Esse processo é importante para a formação do eu do sujeito e a renúncia do próprio narcisismo para a organização libidinal do lugar da criança no mundo e no desejo do Outro. Freud (1925) considera que o narcisismo ou amor a si próprio é designado como “um estado em que a libido ocupa o próprio Eu, tomando-o por objeto” (p.120). No entanto, o complexo de castração contribui para a perda narcísica e o engajamento libidinal frente às perdas, frustrações e lutos que surgirão na medida em que o sujeito se insere no contexto social, bem como no recalque dos desejos incestuosos primários, refletindo na forma pela qual a criança irá fazer novos vínculos afetivos e sociais. Portanto, corroborando com esses processos de constituição psíquica do indivíduo, com base no conceito freudiano, a identificação é um dos mecanismos mais remotos para a formação dos laços emocionais, “ela desempenha um papel na história primitiva do Complexo de Édipo” (FREUD, 1922, p.65). Desse modo, o conflito edípico implica na estruturação da personalidade do sujeito. E, aquilo que se caracteriza como objeto de desejo, ou seja, o que representa ou significa para o sujeito e que promove o direcionamento das suas pulsões, fomenta a sua posição subjetiva ao longo da vida com relação a si mesmo, nas relações sociais e com o mundo externo.

Dessa forma, a criança que está inserida num contexto de separação conjugal, poderá interpretar tal fato com base nas suas fantasias edípicas e como a causa da separação, pois de maneira fantasiosa imagina ser a causa do gozo dos pais e que por isso se uniram. Entendendo esse contexto, a separação dos pais poderá implicar numa lacuna com relação ao lugar libidinal de objeto no imaginário da criança com relação aos pais e que se configura num enigma referente ao gozo do casal parental. Para a psicanálise é importante que a criança atribua um sentido simbólico ao seu sofrimento, suas emoções, angústias e fantasias na relação com a realidade. Dessa forma, a ausência de simbolização e do lugar de desejo do Outro, implica no processo de direcionamento do investimento libidinal para a formação de laços sociais, ausência ou presença de desejo, dentre outros aspectos psicológicos e cognitivos que consolidam a posição subjetiva da criança ao longo da vida.

Dessa forma, a separação dos pais implica num desarranjo familiar com possíveis prejuízos nas dimensões tanto do ponto de vista social quanto na situação da criança na articulação do gozo parental, dificultando o processo de construção simbólica da perda deste lugar libidinal do imaginário infantil e que pode ser manifestado com um sentimento de angústia, sentimento de abandono, frustração, dificuldade na construção de laços sociais, baixo desempenho escolar, ou seja, consolidando a forma que a criança percebe a imagem de si mesma, na constituição do seu eu, bem como nos significados que consegue atribuir diante da vivência da perda, do luto, frente à separação dos pais. Sendo assim, é fundamental um olhar do Psicólogo sobre os possíveis prejuízos na constituição psíquica da criança que vivencia um processo de separação dos pais, não enfatizando, somente, nas causas da separação, bem como sobre a função da família como elemento fundamental na constituição psicológica do sujeito.

Cate Suzan Almeida Couto Estrela é Graduanda do 10º semestre do Curso de Psicologia do Centro Universitário Estácio da Bahia.

REFERÊNCIAS

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ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem. Tradução: André Telles. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Tradução: Vera Ribeiro, Lucy Magalhães; supervisão da edição brasileira Marco Antonio Coutinho Jorge. – Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

TRINDADE, J.; MOLINARI, F. Divórcio: Do processo psicológico, do luto e dos efeitos na criança. Revista do Ministério Público do RS, Porto Alegre, n. 70, set. 2011 a dez. 2011, p. 167-181. Disponível em:

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