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Entrevista – Tema: Autismo – Psicóloga Luciana Di Domizio

Psicóloga Luciana Di Domizio
Psicóloga Luciana Di Domizio

Luciana Di Domizio Amaral é Psicóloga, mestre em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento pela PUC/SP. Formação pelo Centro CIEL/BCN em tratamentos psicoeducativos para indivíduos com diagnóstico de TEA – Transtorno do Espectro Autista utilizando Análise do Comportamento Aplicada.

  • O que é o Autismo?

R: Autismo ou Transtorno do Espectro Autista é um transtorno de desenvolvimento. Acredita-se que seja causado por uma interação entre fatores genéticos e fatores ambientais, entretanto ainda não foi encontrado um marcador biológico, o que significa que seu diagnóstico é clínico (via observação de comportamentos). O indivíduo que recebe esse diagnóstico apresenta dificuldades na comunicação social e interação social e apresenta comportamentos repetitivos, como repetição motora ou vocal. Essa repetição vocal, chamada de ecolalia, pode corresponder a repetição de uma fala ouvida no presente ou no passado. Entretanto essa repetição também pode se manifestar em insistência em fazer as mesmas coisas e dificuldade em quebrar rotina. As dificuldades apresentadas variam muito e podem ser leves, moderadas ou graves, por isso mesmo o nome espectro. Esse nome foi utilizado para frisar que o nível de comprometimento varia bastante entre os indivíduos. Ninguém é igual a ninguém nem apresenta as mesmas dificuldades, não seria diferente com as crianças com diagnóstico de autismo.

  • A partir de quantos anos a criança começa apresentar sintomas do autismo e como os pais ou cuidadores podem identificar esses sintomas?

R: Para ser diagnosticada com TEA a criança precisa ter apresentado os sintomas antes dos três anos de idade. Não existe uma idade determinada para a criança apresentar, muitas vezes desde bebê ela já apresenta, outras vezes o desenvolvimento se dá de forma normal, ou seja, a criança fala, interage como uma criança de desenvolvimento normal e depois observa-se uma regressão ou alteração de comportamentos, ex: interagia muito e passa a interagir pouco ou apresentar dificuldade de iniciar ou manter interação, pode apresentar falas que não tem relação com o contexto da interação. Os sintomas variam muito, mas se revelarão na interação da criança com os outros. Se os pais perceberem que os filhos não estão tendo as habilidades que crianças de mesma idade tem isso já é um alerta. Qualquer dúvida é aconselhável procurar um profissional capacitado para avaliação. Vale frisar que dificuldades de interação não significam incapacidades de interação ou falta de interação. Infelizmente ainda existe um rótulo de que uma pessoa autista é totalmente isolada e que não busca contato com ninguém. Não é dessa maneira. Inclusive tenho pacientes com diagnóstico de autismo que são muito mais sociáveis que crianças com desenvolvimento normal. Esse rótulo só atrapalha, porque além de criar um estigma ainda dificulta o diagnóstico. De forma geral, uma dica para os pais: se você perceber que seu filho tem dificuldades de se expressar, de compreender o que você pede e espera dele, de responder aos seus comandos, de expressar suas necessidades, ou se seu filho só se comunica com você para fazer pedidos, perguntas, mas nunca ou raramente chama sua atenção para compartilhar algo que ele esteja vendo, fazendo, se você vai brincar com ele e parece que ele está brincando sozinho, se ele apresenta restrição de interesses ou interesses muito diferentes das crianças de mesma idade, procure um profissional. Independente de a criança ser autista ou não todos os pais precisam estar atentos aos filhos e procurar ajuda caso percebam que algo não ocorre bem com eles.

  • A seu ver, quais as principais dificuldades enfrentadas por uma criança autista?

R: Como eu falei anteriormente as dificuldades são muito variadas. Essas dificuldades se refletirão em sua comunicação e interação com os outros. De forma bem geral eu posso lhe dizer que uma criança autista tem dificuldade de entender o que se espera dela, de expressar suas necessidades e de compartilhar sentimentos e necessidades com outras pessoas, principalmente pessoas de mesma idade que ela. Muitas vezes têm dificuldade de entender relacionamentos, exemplo, não entende o que significa amizade. Há uma dificuldade de enxergar as coisas em sua totalidade, focando apenas em alguns elementos que compõe o todo. Isso varia por exemplo de brincar com partes de um objeto, não compreendendo sua funcionalidade, a dirigir sua atenção apenas para uma das palavras de uma frase dita por um adulto, por exemplo. Infelizmente os sintomas são diversos e as dificuldades variam de criança para criança.

  • A nossa sociedade esta preparada para acolher essas crianças? O que está faltando?

R: Ao meu ver não está, mas está se preparando, ainda que lentamente.  Está faltando conhecimento sobre o autismo, está faltando desmistificar o autismo, está faltando qualificação profissional para lidar com o autismo, está faltando compreender que as crianças com autismo antes de mais nada são crianças e devem ser tratadas como crianças. Não são robôs ou alienígenas. Muitas vezes o desconhecimento faz com que as pessoas encarem essas crianças dessa maneira. Elas são seres humanos e como qualquer ser humano precisam de amor, atenção, cuidado, apresentam dificuldades e têm potencial para se desenvolver.

  • Como as escolas hoje em dia recebem as crianças autistas?

R: Puxa, você tocou em uma questão muito delicada. Ao meu ver muitas escolas aceitam realmente as crianças, entretanto a grande maioria não sabe direito como lidar e o que fazer para possibilitar a aprendizagem dessas crianças. Lembrando que a criança com autismo tem capacidade de aprender, entretanto o método de ensino é que precisa ser adequado a ela. O que vejo constantemente é que a escola não está preparada para adequar seu método de ensino e acaba delegando isso aos pais da criança, os quais acabam tendo que buscar ajuda profissional para ensinarem comportamentos acadêmicos aos seus filhos.

  • Que orientação você daria aos pais que tem crianças autistas?

R: Eu diria para eles nunca desistirem dos seus filhos e sempre buscarem orientação profissional qualificada. Para eles procurarem se informar sobre o assunto e só pararem de procurar um tratamento quando estiverem satisfeitos com os resultados do mesmo. Diria para procurarem psicólogo que seja analista do comportamento e que seja especializado no tratamento de crianças com autismo, isso porque essa disciplina científica desenvolveu um corpo de conhecimentos e técnicas que comprovadamente contribui e muito para o desenvolvimento da criança. Muitos médicos aconselham os pais a procurarem fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e não recomendam o psicólogo. Entretanto isso se dá na maioria das vezes porque nem os próprios médicos sabem da existência de um trabalho especializado realizado pelo psicólogo. O psicólogo bem qualificado é importantíssimo para auxiliar nesse tratamento, pois é ele que vai ensinar para a criança as habilidades de desenvolvimento que estão prejudicadas por conta do transtorno. É muito importante que haja uma junção de forças para um resultado final, ou seja, cada profissional trabalha um aspecto e a criança melhora como um todo. Vale deixar claro que os pais precisam estar de coração aberto para aceitarem seus filhos e as dificuldades de seus filhos e que participem desse processo de ensino, pois são os pais que convivem a maior parte do tempo com a criança e que consequenciam os comportamentos da criança.  Não adianta levar para o profissional e não fazer sua parte em casa. Diria também para os pais exigirem do profissional que tiver acompanhando a criança um retorno do desempenho da criança na terapia e de quais comportamentos estão sendo ensinados.

Agradecemos imensamente ao tempo que nos dedicou. Além da equipe do Psicoatualizando, a comunidade psicológica inteira agradece à disponibilidade de informações tão relevantes, principalmente aos estudantes e alunos em formação, que ainda estão sem saber direito como é a profissão e para onde devem ir. Esperamos que o senhora possa sentir, em nossos sinceros votos, a nossa profunda gratidão.

 

Eu que agradeço pelo convite e parabenizo vocês pela iniciativa do site! Tenho certeza que contribuirá muito com informação de qualidade para a sociedade.

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